A Justiça Federal suspendeu as obras de instalação de iluminação na faixa de areia da Praia Central de Garopaba. A decisão do juiz federal Daniel Raupp veio acompanhada de multa diária de R$ 10 mil em caso de descumprimento e apontou indícios de irregularidades que deveriam envergonhar qualquer gestor público comprometido com o interesse coletivo: ausência de autorização federal para intervenção em bem da União, falta de estudos ambientais adequados e risco concreto de interferência no comportamento das baleias-francas, espécie protegida que frequenta a Área de Proteção Ambiental que envolve o município.
Mas antes mesmo de chegar à dimensão ambiental e jurídica do problema, cabe uma pergunta mais simples: essa obra era mesmo necessária?
A Praia Central de Garopaba não é uma orla às escuras. Uma pequena parte do espaço poderia, eventualmente, demandar algum tipo de intervenção de iluminação pontual. O que se viu, porém, foi um projeto de outra escala — postes fincados na areia, estruturas na beira do mar, R$ 800 mil de dinheiro público empenhados numa obra que a própria população não pediu e que a Justiça agora manda paralisar.
Oitocentos mil reais. Vale a pena parar e pensar no que esse valor representa para Garopaba. Representa investimento em saúde, numa maternidade que atenda com dignidade as famílias do município. Representa um centro de eventos que movimente a economia local durante o ano inteiro, não apenas no verão. Representa valorização dos professores da rede municipal, profissionais que sustentam o futuro da cidade e que merecem salários à altura da responsabilidade que carregam. Representa, ainda, uma solução séria para o caos que se tornou a coleta de lixo em Garopaba — problema que afeta a qualidade de vida de moradores e a imagem do município perante os visitantes.
Diante de tantas prioridades reais e urgentes, como uma obra dessa natureza avançou sem resistência institucional?
É aqui que entra uma das questões mais preocupantes desse episódio: o papel do IMAG, o Instituto do Meio Ambiente de Garopaba. O órgão existe justamente para avaliar, orientar e, quando necessário, barrar intervenções que possam causar dano ao patrimônio natural do município. No entanto, no caso da iluminação da Praia Central, o IMAG se manifestou afirmando que a obra não careceria de estudo de impacto ambiental — conclusão que vai na contramão do que o próprio ICMBio e a Justiça Federal apontaram depois.
Não se trata de incompetência técnica isolada. Trata-se de um padrão que precisa ser discutido abertamente: quando um órgão de controle ambiental opera sob pressão política, ele deixa de ser um instrumento de proteção para se tornar um instrumento de conveniência. A ausência de quadros técnicos com autonomia real, livres de vínculos partidários e de compromissos com grupos de interesse, transforma instituições de fiscalização em fachadas. E fachadas não protegem praias, não protegem baleias, não protegem o dinheiro público.
Garopaba tem uma identidade construída ao longo de décadas sobre a beleza natural que ainda preserva. Essa identidade não é apenas patrimônio sentimental — é o principal ativo econômico e cultural da cidade. Decisões que colocam interesses políticos acima desse patrimônio não são apenas equivocadas: são um desserviço à comunidade.
A suspensão judicial foi uma vitória da sociedade civil e do bom senso. Mas celebrá-la sem reflexão seria um erro. Uma liminar federal não é o caminho natural para corrigir um equívoco municipal — é o caminho que resta quando os filtros que deveriam funcionar antes disso foram ignorados, omitidos ou capturados por interesses que não são os da população.
O que esse episódio revela é estrutural: uma gestão pública que confunde obra com legado, que usa dinheiro coletivo para responder a agendas políticas, e órgãos de controle que existem no papel mas vacilam na prática. Enquanto isso, a maternidade espera, os professores esperam, as ruas cheias de lixo esperam.
Garopaba não precisa de postes na areia. Precisa de instituições que funcionem, de gestores que respeitem o dinheiro público e de uma sociedade que continue vigilante muito além desta obra. A praia resistiu. Agora é hora de garantir que a cidade também resista — ao descaso, à improvisação e à política que se serve de si mesma.
Por João Julião Luz Lopes.