Por Paulo Joaquim Luz
Sendo herdeiro de uma das maiores expressões culturais de Garopaba, a pesca, cresci convivendo com a última geração dos antigos pescadores da nossa cidade. Homens do mar que, durante décadas, ajudaram a sustentar economicamente o município e construíram uma identidade que ainda hoje faz parte da alma de Garopaba.
Foi nesse ambiente simples, disciplinado e tradicional que cresci ouvindo discussões sobre os desafios enfrentados pela classe pesqueira: dificuldades de organização, baixa representatividade e ausência de planejamento de longo prazo.
Durante muito tempo, essas questões foram tratadas apenas como falhas internas da própria classe.
Mas a realidade sempre foi mais complexa.
Garopaba passou por profundas transformações econômicas e urbanas nas últimas décadas, e esse crescimento nem sempre conseguiu integrar de forma equilibrada as comunidades tradicionais que ajudaram a construir a cidade.
Desde a chegada dos imigrantes açorianos ao litoral de Santa Catarina, em 1748, a pesca artesanal consolidou-se como uma das principais atividades econômicas e culturais de diversas comunidades litorâneas catarinenses. Durante gerações, ela garantiu alimento, renda e estabilidade para centenas de famílias.
A partir da década de 1970, o litoral brasileiro começou a viver um novo ciclo econômico, impulsionado pelo turismo, pelo crescimento populacional e pela valorização imobiliária. Garopaba acompanhou esse movimento.
Em 1991, o município possuía aproximadamente 9.918 habitantes. No ano 2000, esse número subiu para 13.164. Em 2010, ultrapassamos 18 mil moradores. No censo de 2022, a cidade alcançou 29.959 habitantes, e estimativas recentes já apontam para mais de 34 mil. Em pouco mais de três décadas, Garopaba praticamente triplicou sua população.
O crescimento da cidade não é um problema.
O desenvolvimento é necessário. O turismo é fundamental para a economia local. Novos moradores também fazem parte da evolução natural do município.
O verdadeiro desafio está em garantir que esse crescimento aconteça sem enfraquecer a cultura que tornou Garopaba reconhecida nacionalmente.
Muitas famílias tradicionais ligadas à pesca perderam espaço econômico ao longo desse processo. Algumas venderam seus patrimônios sem compreender o valor que aquelas propriedades teriam no futuro. Outras enfrentaram dificuldades para se adaptar às mudanças que chegaram de forma muito rápida.
Mesmo assim, a pesca resistiu.
E continua resistindo.
Famílias preservaram sua atividade, mantiveram sua relação com o mar e continuam representando uma parte essencial da identidade de Garopaba.
Entender esse passado é fundamental para compreender o presente.
A antiga geração se aposentou. Muitos partiram com o tempo. E agora uma nova geração começa a assumir responsabilidades.
Eu, Paulo Joaquim — pescador e artista — escolhi permanecer próximo da minha realidade para compreender profundamente os desafios da classe da qual faço parte.
Durante anos, observei. Ouvi. Aprendi.
E percebi que nossa geração carrega uma responsabilidade histórica. Hoje temos acesso à informação, à tecnologia, à educação e a ferramentas de gestão que gerações anteriores simplesmente não tiveram. Nossos pais e avós fizeram o melhor que podiam com os recursos que possuíam. Cabe a nós dar continuidade a esse legado com mais estrutura e planejamento.
Vivemos um momento em que o mundo discute insegurança alimentar, automação e mudanças profundas no mercado de trabalho. Nesse cenário, a pesca artesanal volta a ganhar importância estratégica.
Ela gera alimento. Movimenta restaurantes. Abastece mercados. Fortalece o turismo gastronômico. Gera empregos indiretos. Preserva conhecimento tradicional. E mantém uma relação equilibrada com o meio ambiente.
Quando a pesca enfraquece, toda uma cadeia econômica local perde força junto com ela.
Por isso, a pesca precisa deixar de sobreviver apenas pela tradição.
Ela precisa crescer com planejamento.
O primeiro passo é uma associação forte e profissional — capaz de organizar juridicamente a classe, ampliar sua representatividade institucional e criar melhores condições de trabalho. Na área econômica, precisamos modernizar embarcações, melhorar estruturas de processamento do pescado e profissionalizar a operação da atividade.
Também podemos diversificar a renda através do turismo náutico. Passeios conduzidos por pescadores podem aproximar turistas da cultura local, permitindo experiências autênticas no mar e fortalecendo a conexão entre turismo e tradição. Ao retornar, o visitante pode consumir o próprio pescado capturado durante a experiência — ampliando a renda da classe e fortalecendo o turismo de experiência.
Estruturas organizadas, bem cuidadas e visualmente integradas à paisagem também podem transformar a atividade pesqueira em um atrativo permanente. Ranchos organizados, embarcações preservadas e espaços adequados para comercialização do pescado podem tornar a própria presença do pescador parte do cartão-postal da cidade.
Na área social, eventos culturais e gastronômicos podem fortalecer o orgulho da classe e ampliar a participação da comunidade. Na educação, precisamos preservar o conhecimento tradicional e preparar novas gerações através de cursos técnicos e parcerias institucionais.
O segundo passo é a criação de cooperativas.
A associação organiza pessoas. A cooperativa organiza capital. Com ela, os pescadores ganham mais autonomia comercial, reduzem a dependência de intermediários e aumentam sua margem de lucro. Também podem criar centrais próprias de insumos para reduzir custos operacionais.
O objetivo não é transformar o pescador em alguém distante de sua origem. O objetivo é dar ao pescador ferramentas para prosperar economicamente sem abandonar sua identidade cultural.
Com uma classe mais organizada, a participação nas decisões públicas também precisa crescer. A pesca precisa estar presente nos debates sobre desenvolvimento urbano, preservação ambiental, saneamento e planejamento costeiro. Não para criar conflitos — mas para garantir equilíbrio.
Seria um erro histórico da nossa geração não utilizar todas as ferramentas disponíveis hoje para fortalecer a classe pesqueira.
Temos tecnologia. Temos informação. Temos exemplos de gestão. Temos capacidade de organização. E temos a responsabilidade de construir um modelo mais moderno, sustentável e eficiente.
Garopaba nasceu olhando para o mar. E continuará crescendo. Novos moradores continuarão chegando. O turismo continuará sendo fundamental.
Nada disso precisa entrar em conflito com a pesca.
Uma cidade verdadeiramente inteligente cresce sem apagar sua origem. Moderniza sem destruir sua identidade. Recebe o novo sem abandonar aqueles que ajudaram a construir sua história.
Valorizar a pesca não é olhar para trás.
É preparar Garopaba para um futuro mais forte, mais autêntico e mais sustentável — para todos.